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O visor do aparelho com energia alimentada por uma placa solar,
enquadra uma flor pálida e solitária na paisagem do cadáver da
civilização colapsada. Ele respira com dificuldade, encostado nos
escombros.
A humanidade esperou demais para frear seus impulsos suicidas e
seus restos se arrastam em meio às ruínas do planeta.
Ele queria compartilhar a imagem da última flor com a rede que não
mais existia. Não havia ninguém a quem enviá-la e ele estava no fim.
O último alento saiu do peito junto com a vida do fotógrafo.
O aparelho foi sugado para a nave que pairou por segundos na
atmosfera e logo desapareceu.
A ponta do dedo prateado e articulado tocou o ícone de envio do
aparelho e a imagem da flor se espalhou pelo universo. Em cada
planeta habitado, a foto surgiu, iluminando os céus em telas holográficas
multidimensionais.
Eu sou a casa
Registro nº 432.
O beija-flor paira em pleno ar próximo ao arbusto com folhas verde-escuras veiadas de branco, sugando o néctar dos botões daquela flor de tom magenta que nunca se abre.
— Beija-flor noturno? — Sílvia sussurra, soltando a fumaça pela boca.
Ele parece perceber que é observado por Sílvia e se volta para a fresta aberta da porta. Dá tiros rápidos num voo intermitente de um lado ao outro, aproximando-se dela que assopra a fumaça do cigarro pela fresta da porta, alcançando o pássaro que se vira num volteio abrupto e voa rápido pelo terreno, ultrapassando o muro alto. Some na noite enevoada, desaparecendo do meu campo de visão e do dela. Sílvia dá uma última tragada, tem um acesso de tosse e dá um peteleco na guimba do cigarro que traça uma curva e ultrapassa as grades de ferro do portão.
Registro nº 1.879.523
A camada de imagem sobreposta ao real se dissolve desvelando o jardim abandonado, tomado pelo mato alto em frente à porta da varanda, dependurada pelas dobradiças enferrujadas. Os vidros quebrados sujos de fuligem impedem a visão do lado de fora. Não há nada para ser visto, o gramado se foi há tempos e até as grades de ferro batido com padrão geométrico que simulavam folhagens foram roubadas. As ruas além do terreno baldio estão abandonadas e a poeira se levanta em volteios que lembram o voo do beija-flor.
Registro nº 001
O jovem casal entra pela porta. Marcos beija Sílvia e os dois vão tirando as peças de roupa e largando-as pelo chão de taco encerado. Eles somem pela porta que dá acesso aos quartos.
Direciono meu ponto de vista para fora das vidraças e percebo o jardim muito bem cuidado, com um gramado que se estende até o muro encimado por grades rebuscadas em estilo “art nouveau”.
Arquivo 029 – Aba: VOCÁBULOS ARCAICOS
“Art nouveau – expressão francesa para “arte nova”. Estilo de arquitetura e de artes decorativas apreciado entre o final do Século XIX e o início dos anos de 1920, inspirado em formas naturais com desenhos em linhas curvas.”
Dados sobre a proprietária:
Sílvia é uma artista que gosta de objetos no estilo retrô ou vintage, palavras que ela aprecia muito e que andaram em moda no fim do século XX e início do XXI. Designam coisas velhas ou usadas que ainda têm charme, outra palavra antiga.
Sílvia parece ser ligada a memorabilia. Os ambientes decorados por ela são repletos de objetos antigos que vão desde a Idade do Bronze até objetos do fim do Século XXI.
Registro nº 045
Marcos entra na cozinha, abre uma garrafa de vinho tinto, enche uma taça e fica bebericando. Sílvia entra na cozinha e pula sobre ele, abrindo as pernas e as enganchando nos quadris de Marcos que a levanta e coloca sobre a mesa. Ela derruba a taça e entorna a bebida na toalha branca. Os dois fazem sexo na mesa da cozinha sem se preocupar com a minha observação.
Particularidades do morador Marcos:
Aparenta viver para satisfazer a proprietária. Não há mais dados sobre o humano.
Registro nº 127
Marcos entra na sala, puxando uma mala de rodinhas. Sílvia vem logo atrás dele chorando. Os dois gritam um com o outro. Ela atira um cinzeiro cheio de guimbas de cigarro contra Marcos, derruba as cinzas pelo chão. Marcos desvia a tempo do arremesso dela, sai para o jardim, puxando a mala e bate a porta. Ela volta para o quarto. Ouço a sua tosse distante.
Observação sobre a saúde da proprietária:
Ela tosse cada vez mais.
Registro nº 2.536
Sílvia entra na sala enrolada em um cobertor. A temperatura do ambiente é 26 graus. Seus cabelos estão brancos e despenteados.
Temperatura da proprietária: 39 graus.
Ela abre a porta e o vento entra carregando folhas do jardim mal cuidado para a sala que não é limpa há tempos e acumula sujeira. Ela tenta fumar, mas tosse muito e apaga o cigarro. Fecha a porta e volta para o quarto.
Registro nº 3.102
Sílvia não sai mais do quarto e não procura ajuda. Os comunicadores estão desligados e não posso entrar em contato com o mundo exterior.
Registro nº 3.456
Humanos trajando roupas de proteção entram na casa e ao passarem de volta pela sala, estão carregando uma maca com um grande saco preto. Eles saem e fecham a porta.
Sensores térmicos indicam que a casa está vazia.
Registro nº 4.592
Humanos quebram as vidraças, entram e levam equipamentos eletrônicos e roupas.
Continuo aqui.
Registro nº 1.880.597
Não existem mais beija-flores.
Eu gostava deles.
Não sei se é possível eu gostar de algo, ou ter uma individualidade que tenha sentimentos, mas sinto falta de Sílvia.
Registro que gostar é estranho.
Registro nº 2.980.990
Uma parede desaba com um estrondo.
Máquinas e humanos avançam pelo terreno abrindo caminho em meio aos escombros. Um humano olha para mim, entortando o pescoço para o lado. Ele vem na minha direção, olha bem dentro do meu olhar e estreita os olhos provocando pequenas rugas na pele marrom clara.
Registro que esse é meu último momento.
Eu sou a Casa e não mais existe casa.
Ele estende a mão na minha direção e…
Registro nº 2.980.991
Vejo o rosto mecânico de uma inteligência igual a minha, artificial, não humana.
Estou num ambiente amplo, humanos e IA’s com corpos sintéticos passam apressados. Alguns trabalham em painéis com uma tecnologia que desconheço.
Vejo que agora eu tenho mãos! Tenho um corpo sintético!
A IA se comunica comigo e descubro que ela se chama Aleph. Ela sorri e eu a imito, mexendo meu rosto sintético e sorrindo também.
— Eu posso sorrir.
— Seja bem vinda! Você está registrada como “Casa”. Deseja permanecer com este nome? — Aleph fala.
Eu penso na minha vida antes desta.
— Eu fui a Casa. Agora sou… — Não consigo escolher um nome. Pela janela vejo o céu negro pontilhado de astros brilhantes. Um deles é azul e estamos nos distanciando dele.
— Eu sou Terra. — Estendo a mão e cumprimento Aleph.


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