Retorno
Bebê esperneia sobre a mesa da cozinha. Encaro minhas mãos enquanto a panela de pressão assobia com a urgência de um navio partindo. Filha agarra Bebê em um rompante ao mesmo tempo protetor e violento. Mãe, a senhora endoidou?, diz e gira o corpo, me dá as costas. Nora joga a panela de pressão na pia e abre a torneira. Só então sinto o cheiro de queimado. Nora tampa o nariz, alcança um pegador de macarrão e pesca de dentro da panela uma mamadeira murcha com leite caramelizado no fundo. É doce de leite pro lanche de vocês, Filha. Você gostava tanto. Mãe, a senhora ia fazer doce com leite de peito? Nora não diz nada (nunca na minha frente, agradeço), mas a forma como me encara diz tudo. Sou um televisor velho. Um aspirador de pó antigo. Algo que antes já teve serventia, mas hoje só acumula poeira, constantemente trocado de cômodo para não incomodar, esquecido exceto por ocupar espaço, quando alguém topa com o dedinho do pé e abafa um xingamento.
Faz tempo que me perdi no tempo.
Vejo a luz. Surge bem onde deveria estar Filha, emoldurada por arestas brilhantes, Bebê chorando em seus braços, Nora logo atrás, me encarando, desconfiada. É tão difícil controlar a viagem no tempo agora que não sou nada senão uma fita VHS, a lembrança de um passado distante. Quando me aposento, prometo que irei recuperar o tempo perdido com Filha. Todo o tempo que perco na Companhia, que gasto no presente de pessoas que não são eu, e nem Filha, e muito menos Bebê, que está no futuro com suas bochechas coradas e cachinhos negros.
Estou próxima à mesa da cozinha, a mesma cozinha, mas os azulejos são outros, a tinta está gasta, e grito quando a família adentra a casa, quem são vocês?, antes de compreender que estou no futuro, são as novas moradoras, mas uma delas se aproxima, mãe, a senhora está bem?, e de fato tem os meus olhos, essa estranha. É você, Filha, e já estou no passado.
Não posso. Nem passado, nem futuro. Preciso me concentrar no presente, em minhas mãos endurecidas, no cheiro de plástico queimado, na expressão severa de Filha e no choro sentido de Bebê. Sorrio, embora a situação não comporte sorrisos. Mais cedo, lavei as roupas, passei, dobrei tudo! Ninguém escuta. Sobem as escadas. Nora sussurra, deixei Bebê com sua mãe cinco minutos, juro, tive que atender uma ligação, não sei como ela causou todo esse estrago em tão pouco tempo.
A luz nunca está muito longe.
Às vezes, é como se me tragasse, e então sou menina, sorridente, boba até, provando doce de figo direto da panela. Noutras, vou para onde quero, Senhora do Tempo (como em outros tempos). Se você administrar bem o tempo, é possível viver para sempre, meu supervisor sorri, e qualquer coisa calada dentro de mim grita que o único tempo em que quero viver é no meu próprio. No tempo perdido de Filha, aquele tempo que nunca posso recuperar. Nos breguíssimos dias das mães no colégio, com músicas de Roberto Carlos e corações de cartolina. Nos natais em que tento compensar minhas ausências com presentes caros. Nas formaturas, nos namoros, nos rompimentos. Porque, quando retorno, sou recebida com olhares de repulsa. Mas tudo bem, depois posso voltar se quiser, não?
Não. No presente, a luz não me obedece. Me arrependo, e então me arrependo de me arrepender. Sei que é um redemoinho, e quem sabe qual passado terei que revisitar? Nunca me curo do passado. Rio, as roupas estão lavadas e passadas, e dessa vez tenho certeza de que não queimei nada com o ferro, de que o café tem açúcar e não sal. Voltei no tempo para me certificar de que fiz tudo corretamente. Sei que decepciono Filha mais uma vez, com toda a história de Bebê na mesa da cozinha e mamadeira de leite materno na panela de pressão. Foi um lapso.
Suspiro. Dobro meus dedos e por um momento estou no mar, criança, os dedos engelhados de sal, os dedos de Filha, engelhados pela água da piscina que mandei construir para que passasse o tempo sem mim, os os dedos de Bebê, na banheirinha de plástico, enquanto me perco em um passado que quero consertar, como nos velhos tempos. Mãe, a senhora está bem?, o tempo em que Filha ainda tinha paciência comigo.
Filha tentou bastante. Bebê também. Até Nora, com seus olhares reprovadores e sussurros no quarto de casal. Tento lembrar de seus nomes, mas nomes não resistem ao tempo. São tudo o que importa para mim, mas a luz é muito branca e muito forte, não deixa espaço para mais nada. Esqueci os caminhos, as dobras, os portais. Talvez o tempo será gentil comigo. Sou uma velha conhecida, afinal. Caminho em direção à luz. Não quero viver para sempre, mas, se puder, desejo recuperar o tempo perdido.


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