Iana Araújo

Ouça os cães a clamar

Cidade estava confortavelmente vazia.

Sua avenida principal, com seis pistas largas, estaria deserta se não fosse por uma matilha de cães perseguindo uma fêmea no cio. Ela trotava ao longo da pista à direita, decidida, grunhindo e ameaçando morder qualquer macho que se aproximasse demais. Os outros a seguiam, esbarrando e tropeçando entre si. Às vezes, ela se escondia deles entre uma fila de carros elétricos plugados em uma estação de carregamento, mas eles não desistiam.

Conforme o sol se punha, as luzes começavam a se acender automaticamente, emitindo o zumbido estático da energia solar em cada poste que se iluminava. O asfalto reluzia com seu brilho matizado de cascalho perfeitamente liso, nunca machucado por pneus de veículos. Aquela avenida era uma mistura de enormes arranha-céus com edifícios históricos, estes servindo de hall de entrada aos centros comerciais com enormes fachadas envidraçadas. Cidade brilhava em concreto e vidro, imensamente orgulhosa, como se recém-construída.

Colônias felinas haviam se formado em Cidade ao longo das décadas. As ruas e avenidas eram o território dos cães, vigilantes, mas os pátios e estacionamentos vazios pertenciam aos gatos. Sobre as copas das árvores frondosas da avenida, os pássaros já anunciavam a aproximação do crepúsculo, enquanto gatos com pupilas dilatadas os observavam. Quando o sol se pusesse, o alvo das colônias de gatos não estaria mais nas árvores sem poda, mas nos muros de Cidade, onde timbus circulavam em passos apressados, mães cheias de filhotes suculentos em suas costas.

Dentro dos edifícios comerciais desertos, onde a luz do sol não penetrava, as corujas começavam a esticar as asas. Estava quase na hora de vasculharem os céus. Em Cidade, a noite lhes pertencia.
Foi um grupo de cerca de cinquenta pessoas pedalando no asfalto liso da avenida que pôs um fim ao ritual diário dos habitantes de Cidade. Suas bicicletas fizeram com que a cadela e seus perseguidores se dispersassem, apavorados, uivando de maneira desordenada: Atenção! Atenção! Eles estão aqui! Os sinos das bicicletas soavam como sirenes de alerta. Conforme pedalavam, os alarmes dos carros elétricos disparavam. Atenção! Atenção! As corujas em seus ninhos ouviram o clamor dos cães e seriam cautelosas na noite porvir, assim como os gatos, os ratos, os timbus e toda sorte de roedores, pássaros, répteis e insetos que habitavam as concavidades urbanas de Cidade.

Empoleirados em janelas, postes de luz e muros, os pássaros observavam enquanto o grupo de pessoas falava alto e apontava em várias direções, examinando tudo ao seu redor. Uma revoada de garças cruzou o céu, grasnando o aviso. Atenção! Atenção! Os humanos miravam-nas, fome em seus olhares. Os outros animais se amontoaram em seus esconderijos, ansiosos. Com mochilas, lanternas, pés de cabra e outros instrumentos pontiagudos, as pessoas começaram a se espalhar — alguns deram partida nos carros elétricos, enquanto outros abriam portas em prédios residenciais e comerciais.

No chão, eles perseguiram os gatos de seus covis justamente ocupados, que se esquivavam e corriam para longe, chiando e rosnando. Nos prédios babilônicos, eles investigaram apartamentos vazios, assustando abutres, carcarás, socozinhos, periquitos, araras e papagaios de seus ninhos nos andares mais altos. Os humanos coletaram ovos e capturaram um dos socozinhos para o jantar. Depois de várias horas, sentindo-se satisfeitos com a exploração desordenada que fizeram, fecharam-se em um prédio residencial — o maior e mais elegante da avenida. Sentiram-se afortunados pela ausência de outras pessoas em Cidade, prontos para tomá-la para si. Os cães, inquietos, uivaram pelo resto da noite.

Se as pessoas abrigadas no prédio tivessem olhado para as ruas por um momento, teriam visto a mais estranha das visões: contra o pôr do sol, mães gatas apressadas carregavam seus filhotes na boca, e como havia muitos dos pequeninos, até as mães timbus carregavam alguns gatinhos nas costas, juntamente com seus próprios filhotes, correndo e correndo o mais rápido que podiam. Mas ninguém olhou. Eles ouviram, no entanto, patinhas passando apressadamente por canos e dutos no prédio, descendo e descendo, até alcançarem os caminhos no subsolo de Cidade. Enquanto isso, os cães continuavam uivando.

Os pássaros já tinham ido embora, e logo nem mesmo os grilos e as pestes subterrâneas ficaram naquele quarteirão elegante de Cidade. Até os cães silenciaram. Junto com os outros animais de Cidade, eles prenderam a respiração.

A noite ia alta quando Ela finalmente acordou. Bocejou longamente e o som dos prédios rangendo despertou o grupo de humanos.

As luzes se apagaram no quarteirão elegante. Os humanos acordaram de sobressalto, o clangor de metal sendo triturado, como se o edifício se dobrasse sobre o próprio peso. Apressadamente, eles começaram a fazer as malas, esbarrando e tropeçando uns com os outros, agarrando ferramentas, armas e chapéus de mineração com lanternas acopladas. Dispararam para os corredores do edifício, gritos urgentes acelerando seus passos.

Cidade suspirou, e todo o quarteirão tremeu nas dobradiças, emitindo um som ensurdecedor de concreto, aço, cerâmica, brita e vidro esmagando-se. Os humanos gritaram mais alto enquanto as paredes se encolhiam sobre eles e as escadas perdiam seus degraus.

Abaixo do prédio, Ela abriu Sua boca enferrujada. Primeiro mastigou suas bicicletas, engolindo o som desafinado dos sinos morrendo e fazendo o chão tremer a cada rangido. Dentro do prédio, as pessoas tentavam descer as escadas em ruínas, tropeçando umas nas outras, desespero e confusão em seus olhos.

Uma última vez, Cidade abriu a boca e os devorou. Se houve mais gritos, não poderiam ser ouvidos para além da bocarra de dentes tortuosos que se escancarava. A língua, que se assemelhava a um encanamento, enrolou-se no subsolo, guiando o alimento diretamente para a barriga de aço e concreto, onde os fios de eletricidade pipocaram brevemente, mas resistiram à sobrecarga, fundindo-se com carne, ossos e tecido.

Por toda Cidade, as luzes piscaram por uma fração de segundo, mas voltaram juntamente com as luzes do quarteirão onde antes havia humanos.

Pelo resto da noite, não se ouviu mais o clamor de cães ou corujas, e quando o dia seguinte chegou, os pássaros voltaram aos ninhos nos andares superiores do edifício regurgitado, agora limpo de humanos. Os gatos também retornaram aos pátios e estacionamentos do quarteirão, sua rivalidade natural com os timbus e pássaros restabelecida.
Cidade estava, mais uma vez, confortavelmente vazia.


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