Trama
Quando o sono custava a chegar, costumava sair ao quintal e me sentar aos pés da castanheira. Gostava de saborear o silêncio, sob os rasantes dos morcegos. Era um surto de coragem e medo que me fazia sentir viva. Tinha essa mania de deixar a noite provocar os meus sentidos.
Daquela última vez, o tempo estava nublado, e as nuvens haviam encoberto toda a luz. O breu que tinha se instalado não me deixava sequer ver a lua. No momento em que me levantei, um raio irrompeu entre as nuvens em um zigzag, costurando duas cortinas que se formaram no céu. Enquanto vislumbrava o lampejo, a luminosidade revelou tudo o que havia no quintal: as roupas penduradas no varal, o canteiro de suculentas, a horta de cebolinhas, os vasos de cerâmica, e as raízes robustas das rosas do deserto.
Lembro-me de ter ouvido uma voz melosa chamar o meu nome. Já passava da meia noite. Deixei-me seduzir pela voz e saí a sua procura. Lavei as mãos no lavabo, do lado de fora, e senti a fragrância da lavanda que crescia ao lado da varanda de entrada. Deixei as sandálias no capacho, e tentei abrir a porta sem fazer ruído, mas as dobradiças escandalosas foram pouco empáticas ao meu zelo.
Quando entrei em casa, para a minha estranheza, havia um emaranhado de teias de aranha que desciam do teto da sala, como um dossel provençal. Uma complexa rede orbital em forma de mantas que pendiam de um extremo a outro da parede. Não me lembrava de tê-las visto nunca tão atrativas. Fui invadida por um grande desejo de me envolver naqueles fios de seda. Quem havia feito aquilo?
Uma mosca que voava por perto realizou uma manobra rápida, como que para mudar a direção, mas colou na espiral, que, em vez de arrebentar, absorveu o impacto, sugando-a em seu material adesivo. A rede estava entrelaçada de forma a conferir resistência e elasticidade à imensa tela. Combinação que tornava a espiral inescapável.
Já a trama que pendia próxima à janela trazia em sua estrutura pigmentos que refletiam uma radiação ultravioleta. Notei que, para cada tipo de presa, havia uma estratégia de captura, reduzindo a mínguas qualquer chance de fuga.
Enquanto observava aqueles espirais enigmáticos, um inseto colado naquela trama atraiu a minha atenção: tratava-se de um besouro. Um diminuto besouro envolvido pelos fios sedosos, e que parecia agonizar. Aproximei o meu rosto do desventurado. Queria examiná-lo. De aspecto lustroso, tinha livre apenas a cabeça avermelhada, as duas antenas e as mandíbulas. Todo o resto havia sido embrulhado. Era a primeira vez que via um inseto em estado de choque.
Seus olhos pretos esbugalhados saltavam das órbitas. Temia pela aranha que voltaria a qualquer momento para tragá-lo. Decerto um fim duríssimo. Os três pares de patas estavam empacotados da coxa ao esporão, e as delicadas asas membranosas estavam amarrotadas e enroladas ao redor do tórax. Nossos corações batiam ritmados na mesma cadência, como se tratasse de um único coração. Ao encará-lo de perto, eis com que tragédia me deparo: seus olhos de desespero eram os meus próprios, naquele instante percebi que eu era o besouro.
E em meio a esse engenhoso emaranhado, a artrópode protagonista desta história entrou em cena. Corpo preto, reluzente, e um sinal em forma de ampulheta no abdômen. Caminhou majestosa em seu traje de gala. Primeiro, deslizou convicta pelos fios, e seguiu em sua valsa compassada. Em seguida, se lançou do alto de sua teia, e quando penso perdê-la de vista, ela retoma seu caminho, suspensa por um fio guia. Não era grande, nem pequena. Notou a minha presença, e nem tentou dissimular seu prazer evidente. Se aproximou devagar. Me encarou segura, obscura, obscena… Embrulhou-me lentamente, enquanto os palpos de suas quelíceras se aguçavam. Meu delírio era o seu frenesi…
Por que haveria de querer-me em sua trama, se outros tantos insetos já eternizavam em sua teia? Nos olhamos. Senti a aflição da presa. A convicção de não ser eterna, a agonia de não ter feito da noite, da neblina austera, meu último gozo. E querendo ser outra, no ímpeto do meu último
Notícia
Augusto se levantou da cova, ajeitou-se como pôde e pegou o primeiro ônibus de volta para casa. Ao chegar, passou pela porta de entrada sob o olhar da mulher, sogra e filhas. Sua pele havia adquirido uma textura opaca, e um líquido lhe vazava pelas narinas. Havia restos de pétalas escondidas em seu cabelo, murchas, como seu corpo inteiro que se esfacelava. Era todo uma composição de flores velhas, terra seca e carne vencida. As quatro mulheres não puderam sequer reagir.
Ele se sentou na poltrona da sala, pegou o jornal do dia e se pôs a ler. A viúva olhou para a mulher mais velha. Haviam vendido seu carro para pagar as despesas do velório, doado suas roupas e queimado seus documentos. Seu escritório havia sido transformado em uma biblioteca decorada com cortinas de bordado inglês, compradas na feira de Boa Esperança.
“Papai, pode desenhar uma bolha?”, pediu-lhe a caçula, animada com a sua presença.
“Que espécie de bolha?”
“Uma bolha de sabão.”
Concentrou-se para fazer o desenho, mas suas mãos cinza permaneceram estáticas. E quanto mais se concentrava, mais paralisado ficava. A criança desistiu do desenho e decidiu fazer a bolha ela mesma. E fez dezenas de bolhas.
A mulher mais velha havia organizado o velório. Seus dois irmãos vieram de Dores do Rio Preto quando souberam da notícia. As tias avós enviaram coroas de rosas brancas de Ecoporanga. O padre havia velado o morto durante toda a madrugada, animando o coro junto às beatas. E sua mulher havia chorado ao ouvir o trecho de “Quem nos separará?”.
Precisavam contar a ele.
“Augusto, você morreu”, disse-lhe a viúva.
Ele prestou atenção nas palavras, mas não as absorveu por completo e continuou lendo o jornal.
A viúva foi até o quarto e voltou com um pequeno espelho de moldura prateada nas mãos.
“Olhe, Augusto.”
Augusto vislumbrou sua cara cinza. Também viu no espelho seu cheiro de carne morta e o reflexo do que agora lhe parecia uma biblioteca. Ainda com os olhos fixos em sua imagem, retirou os chumaços de algodão que ainda se escondiam no fundo de suas narinas.
Então ele havia morrido.
Pensou se deveria se afundar novamente na cova de onde havia saído. Pensou por mais um instante e decidiu ficar.
Com o passar dos dias, sua matéria foi ficando tristemente decomposta. Sua pele se dissolveu camada a camada, prega a prega, e seu odor impregnou cada canto da casa. Sua carniça absorveu os cômodos de tal forma que chegou ao ponto de não poderem mais estar no mesmo ambiente que ele.
Augusto ficou até os vermes consumirem o pouco do que restava de sua matéria em ruínas. Ficou até aquelas mulheres recolherem os últimos fragmentos de sua carne morta. E quando ele, por fim, acabou, elas puderam gozar do bordado inglês.


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