O Colecionador
O velho não cansava de repetir que a caixa de ferramentas precisava estar sempre arrumada. Tudo no seu devido lugar.
Abro os armários e as gavetas, analiso o que tenho disponível, o que é possível reutilizar. É difícil encontrar peças de reposição para esses modelos mais antigos. Essa maldita obsolescência programada! Inclusive, tenho que fazer contato com o fabricante sobre os ruídos desagradáveis que não me deixam dormir em paz. Mesmo sem a língua, continuam a fazer barulho.
Com as partes espalhadas na mesa, analiso o prejuízo. Isso vai dar muito trabalho. Como se não bastasse, ainda tem os gemidos, que não param. Fico irritado. Melhor colocar uma música para me concentrar e pegar mais uma dose de Campari.
Nunca soube como ele descobria quando eu entrava no quartinho que chamava de oficina. Aquele desgraçado amava alicates, martelos e chaves de fenda mais do que tudo na vida. Contudo, era o fedor de cachaça barata que me sufocava quando ele chegava muito perto. Bebida de macho, ele ria enquanto engolia sua dose rotineira antes de cada refeição. Desvio os olhos das cicatrizes na minha mão direita. Olha agora, seu otário, não precisei de você para ter meus próprios brinquedinhos. Daquele diabo herdei só o que não presta: a cara cheia de sebo, as falhas no couro cabeludo e o medo de apanhar na rua.
Agora, arrumar as caixas de ferramentas, etiquetar as peças e beber meu Campari sem ninguém para encher meu saco é meu maior prazer. Os invejosos de plantão me criticam dizendo que não é bebida de homem. Não interessa, é a que eu gosto e papo encerrado. É o que me distancia do babaca que me criou. Campari, não cachaça. O coach me ensinou que esses caras não entendem nada da vida e nunca saberão como é ser um homem na minha posição. Lutei muito para chegar aqui e esses idiotas não estão à altura de argumentar comigo. É preciso superar as humilhações. Bando de filhos da puta.
O barulho infernal continua. Silêncio! O murro na porta deixa marcas vermelhas nos nós da minha mão. Parem com esse barulho, vocês precisam se comportar. Olha só a bagunça que está nesse quarto. Não vou mais tolerar que façam o que bem entendem aqui nessa casa, entenderam? Ou me obedecem, ou já sabem. O que falta para vocês, aqui? Tem comida, água fresca e cama confortável. E o que fazem pelas minhas costas? Destroem tudo. Sou legal com vocês, mas não gosto de ser contrariado. Agora já sabem, né? Vou mudar o cadeado da porta, colocar grades na janela, transformar isto aqui numa prisão. Que se foda, vai ficar todo mundo amarrado e com mordaça. Onde já se viu querer me atacar? Ainda não dei uma surra porque não quero estragar a cara de vocês. Sou mais forte. Olhem esse muque! Um único murro quebra nariz, rasga boca e faz vocês cuspirem os dentes.
Fala, Chico. Não acredito. Essa cadela está aí embaixo de novo. De todas, essa filha da puta é a mais rebelde. Só essa semana, já é a segunda vez que desço para buscar essa vagabunda. Faz isso para chamar atenção. Gosta de plateia, gosta de aumentar meu ódio. Chico, não deixe ninguém chegar perto que já estou descendo.
Essa piranha vai me fazer descer pelo elevador de serviço e ainda levar o carrinho de compras. Da outra vez, consegui subir com ela no colo, mas hoje não dá. Cara, isso me tira do sério. Acreditei que realmente tinha encontrado a companhia ideal. Estava até confiando nela. Gentil, solícita, educada. Uma boa moça, como minha mãe dizia. Podia ir com ela a qualquer lugar. Seguia à risca as minhas ordens e nunca dava vexame.
Gosto de exibi-las e ouvir os comentários divertidos dos amigos sobre a possibilidade de desfrutarem delas quando forem dispensadas. Porém, há um mês essa cadela só tem me trazido dor de cabeça. É sempre assim. No começo, é tudo uma maravilha, e elas se encantam comigo e ficam logo apaixonadas. Mas não posso confiar em ninguém e acabo tendo que começar tudo de novo.
Nesse novo cargo é essencial estar sempre elegante e bem acompanhado. Gosto das loiras, de cabelos lisos, bocas carnudas, seios com silicone e malhadas. Ainda bem que tenho grana. Esse tipo custa caro, muito caro. Chega a valer quase uma Ferrari. É, meu amigo, disse outro dia para o Roberto, tem que ter capital para manter uma máquina dessas. Ele riu e disse que não tem dinheiro nem para comprar uma bicicleta. Tem que se contentar com as descartadas, velhas e rodadas. Rimos.
Que merda! E eu pensando que o Chico ia me avisar que era a minha encomenda nova na portaria. Estou ansioso, porque os novos produtos comprados no AliExpress realmente são de excelente qualidade. A que chegou mês passado está me servindo muito bem. Faz tudo conforme está na embalagem é uma gostosa igual às modelos da internet. Lógico que não chegam aos pés das nacionais, mas estão me satisfazendo, e é isso que importa.
O estrago dessa vez foi feio, né Chico? Me ajude aqui. Pegue a perna e aquele olho ali na grama. Chico chega a babar. Essa é a parte que ele mais gosta. Zeloso, cata as peças com cuidado. Aproveita para passar a mão áspera nas coxas em suas mãos, com a desculpa de limpar o sangue. Ele sabe que em breve, talvez, receba um presente. Dou uma piscadela para ele, que abre um sorriso de poucos dentes. Calma, Chico, ainda vai demorar um pouco. Agora pode deixar que eu subo sozinho. Entrego uma verdinha e alerto para que fique de olho e não comente nada.
Me sirvo de mais uma dose dupla de Campari e aumento o som. Puxo o cabelo dela para trás. Quero que me olhe. Ainda vou usar essa vagabunda esta semana para treinar uns golpes. O sangue escorrendo pela boca e seus olhos arregalados me dão tesão. Fico louco e o sexo, depois, é sempre perfeito.
Para de chorar e me escuta, sua putinha! Da próxima vez, se joga da cobertura. Já não existem mais componentes para o seu modelo. Com um gancho de direita certeiro, coloco a piranha para dormir. Estou ficando bom nisso. No espelho que cobre toda a parede do quarto, admiro meu rosto harmonizado e tenho a certeza que preciso fazer um implante capilar com urgência. Mais uma herança do diabo.


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