Operação Tira o Pé do Chão
Diário de investigação — Transcrição do áudio número 10 Caso 010333: Operação Tira o Pé do Chão
Investigadora autônoma responsável: Vanessa Gomes
Resumo: No dia 1º de março de 2033, na cidade de Salvador, estado da Bahia, capital rotativa da República do Cuscuz, um cidadão de codinome Pérola Negra foi avistado utilizando um artefato mágico conhecido como “Eu falei Faraó”, fazendo com que pessoas repetissem frases contra a sua vontade. O fato gerou tumulto na passagem do trio elétrico do bloco Haja Amor, que fecha os festejos carnavalescos da cidade. O cidadão, ainda desaparecido, infringiu o artigo 7º da Lei Emergencial para a Regulamentação de Objetos Localizados Enfeitiçados ou Sob Regência Onírica (Lero-Lero) que proíbe o uso de artefatos para coação ou atos violentos.
Transcrição:
(Vanessa) Hoje é dia 10 de março de 2033, e eu não aguento mais essa patacoada. Já rodei a zorra dessa cidade toda e nem sinal de Pérola Negra. A boa notícia é que nenhum incidente parecido ocorreu nos últimos dias, então, onde quer que esse abestalhado esteja, arrumou coisa melhor pra fazer do que ficar mandando ozôto falar o que não quer. Conversei com uns conhecidos do suspeito que foram mais inúteis que guarda-chuva em dia de tempestade. Mas, de qualquer forma, no Anexo 1 deste relatório, há a transcrição dos depoimentos.
(Vanessa) No momento, procuro novas linhas investigativas para dar prosseguimento à apuração do caso enquanto o pedido de arquivamento protocolado por mim não é aceito pelos presidentes Josenildo, Geraldinho e Elimar, que se encontram no interior do estado participando de um festival de forró. Resumindo: os bonitos estão por aí tocando sanfona, zabumba e triângulo, e eu tô presa num beco apertado e escuro enquanto o trio do Chiclete com Banana passa e arrasta tudo o que encontra pela frente. Mais paralisada que o trânsito na Paralela em horário de rush. Enfim.
Roda Morta
O cheiro de carne humana esturricada invadia as narinas de quem passasse em frente ao parque de diversões Alegria Radical. Havia tempo que diversão e alegria não tinham vez. Já os ataques estavam cada vez mais radicais.
Não era a primeira vez que o local enfrentava mortes suspeitas. O fim da vida de mãe e filho foi peso demasiado para a administração do parque suportar. As portas se encerraram e o povo seguiu a vida achando que era problema temporário.
Aí veio a roda-gigante girando por conta própria. Mais uma vez, ninguém ligou. Quem já viu um homem-pavão cruzar os céus não se abalaria com barulho de engrenagens enferrujadas. Mesmo que não houvesse uma viv’alma operando o equipamento.
Morreu a primeira pessoa que entrou no parque vencida pela curiosidade. Quem mandou se meter onde não é chamado? Deveria saber que o lema da cidade é “Seja feliz cuidando da sua vida”. Caso abafado, vida que segue.
Ou seria assim se a metida a ativista de direitos humanos não tivesse jogado nas redes a fofoca. O dono do parque foi obrigado a contratar um segurança.
Tudo parecia calmo nas rondas de Ronaldo, tirando a roda-gigante que funcionava sozinha. O ranger do equipamento virou ruído branco para os ouvidos.
Até que o velho sentiu cheiro de churrasco de gente. Entrou no Alegria Radical sem titubear, já sabendo onde era a raiz do problema. E lá estava o corpo torrado ainda soltando fumaça bem em frente à roda-gigante. O brinquedo continuava a girar, impassível ao horror nos olhos do segurança.


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